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Polêmicas e controvérsias das novas regras

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A nova edição das Regras de Golfe é o resultado do mais amplo e detalhado trabalho da USGA e A&R dos últimos 60 anos. Não há unanimidade total nos resultados, mas todos concordam que, no geral, houve um avanço significativo; até porque golfistas do mundo inteiro, profissionais e amadores, foram ouvidos, e suas opiniões levadas em conta. Foram lidas e analisadas mais de 22 mil sugestões, e foi a primeira vez na história do golfe que ocorreu essa consulta popular.

Para além dos detalhes ou aspectos pontuais a serem questionados, o caminho é o correto: o esforço contínuo para simplificar um esporte que é tão sedutor e envolvente em sua prática quanto é complexo e extenso em suas definições. “O número de regras diminuiu consideravelmente, visando simplificar os regulamentos do esporte. Agora são 24, e antes eram 34. Esse é um ponto positivo”, observa Daniel Neves, diretor de regras e relações internacionais da CBG. A mesma impressão ocorre entre estrangeiros. “De fato, essa redução de regras é algo bom, embora precisemos lembrar que cada uma das novas regras trazem suas sub-regras, e elas também são muitas”, pondera Jason Lusk, jornalista americano especializado no esporte.

Entre os tantos pedidos dos golfistas consultados, dois se destacaram, e ambos os pedidos foram recusados: o aumento do diâmetro do buraco e o alívio para a bola que esteja dentro de um divot. As explicações oficiais são que o atual diâmetro permite ao jogador desfrutar suas habilidades adquiridas. Quanto à bola no divot, argumentou-se que permitir o alívio destruiria um dos conceitos mais sólidos do golfe, que é o de “jogar a bola como se encontra”, o qual já está incorporado ao esporte desde 1775. “Se por um lado desejamos tornar as regras mais fáceis de serem assimiladas e aplicadas, também desejamos manter as tradições e os princípios do jogo”, resumiu Thomaz Pagel, diretor sênior de regras da USGA.

Porém, nem todos pensam assim. O próprio diretor de regras da CBG tem outra visão. “Infelizmente, uma das mudanças de regras mais debatidas não foi feita, que é, justamente, a relativa às famigeradas bolas que param dentro dos divots”, lamentou Daniel Neves. E ele não está sozinho nessa opinião, defendida por uma legião de golfistas amadores. “Sobretudo nos campos nos quais houve nos dias anteriores uma competição profissional, o número de divots é excessivo, e eles são mais profundos, comprometendo as tacadas. Poderia haver alívio para melhor ritmo de jogo e também para o jogador não se sentir penalizado por ter dado uma boa tacada e encontrar sua bola em uma depressão”, comenta o golfista amador e empresário Hilton Campos, proprietário da loja São Bento Golfe e jogador do Broa Golfe Clube. Outro que concorda com Neves e Campos é o empresário e golfista scratch Durval Pedroso, do Lago Azul Golfe Clube. “O jogo de golfe é baseado sobretudo no espírito da meritocracia. Então, por que uma ótima tacada deve ser penalizada com a bola ficando no fundo de um divot não reparado? Essa é uma regra que, a meu ver, deveria ter sido alterada”, diz Pedroso.

Quanto a poder manter a bandeira no buraco durante a jogada, parece haver uma certa unanimidade. “Haver a possibilidade de patear com ou sem bandeira é uma mudança positiva, uma vez que contempla os dois tipos de jogadores: o que prefere sem e o que prefere com bandeira”, diz o profissional brasileiro Rodrigo Lee. “Essa nova regra também permite ao jogador avaliar se, na situação específica em que ele está, a qual envolve distância, aclive ou declive, ondulações, etc., é mais vantajoso patear com ou sem bandeira. Afinal, a haste da bandeira tanto pode ajudar a reter a bola quanto expulsá-la do buraco”, completa Durval Pedroso. O presidente da CBG, Euclides Gusi, ele também golfista, chama a atenção para o aspecto do tempo: “Com essa possibilidade de não retirar a bandeira, o jogo também fica mais rápido em diversas situações, uma vez que dispensa a assistência a ela”.

Também é curioso notar que as preferências por esta ou aquela regra depende das experiências vividas de modo mais acentuado por cada jogador. Rodrigo Lee chama a atenção para uma delas: “Para mim, a melhor mudança foi a de agora ser permitido reparar as marcas de sapato nos greens. Realmente estávamos precisando disso”. E Durval Pedroso lembra de situações vividas com o drope: “Mais de uma vez, minha bola afundou na areia ou em terrenos húmidos por conta da altura do drope e seu maior impacto no solo. Agora, com a nova regra, o drope na altura do joelho não permitirá que a bola afunde tanto”.

Com a nova regra, o drope na altura do joelho não permitirá que a bola afunde tanto | Foto: Arquivo


Outro aspecto debatido é o da sequência de jogo, ou seja, quem deve bater primeiro. “Das regras novas, não vejo nada que atente contra o espírito do jogo, nem o patear com a bandeira no buraco e nem reparar os danos no green; no entanto, o incentivo para jogar quem está pronto no lugar de quem está mais distante do alvo rompe o ritmo do grupo e invade a rotina das tacadas”, diagnostica Thomaz Albornoz Neves, ex-golfista profissional e hoje amador com handicap 2, sediado em um dos campos mais antigos do Brasil, o Clube Campestre de Livramento, no Rio Grande do Sul. Já Alexandre Rocha, profissional brasileiro e com atuação internacional, resumiu de modo bem direto sua posição: “Excetuando duas novas regras excelentes, a de arrumar falhas no green e a de poder patear com a bandeira no buraco, todas as outras considero desnecessárias”.

Dentre tudo o que pode ser discutido e analisado, o aumento do interesse do jogador comum pelas regras talvez seja a maior prova do acerto do conjunto. Esse mudança comportamental foi claramente percebida pelo diretor de Regras da CBG. “A redução do número de regras e sua linguagem mais direta incentivaram o jogador comum a procurar saber mais sobre elas. Percebemos, por exemplo, que os árbitros, estão sendo muito mais procurados pelos jogadores para tirarem suas dúvidas. Isso é muito positivo, pois vai trazer uma interação cada vez maior entre golfistas e o conhecimento necessário para a boa prática desse esporte”, comemora Neves. O presidente da CBG chama a atenção para algo fundamental.