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de Lanfranco Vaccari | tradução de Vania Andrade
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Espanha, a terra do golfe

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A península hispânica capta quase um quarto do bilhão e meio de euros que o turismo golfístico na Europa arrecada por ano. Aos seus destinos clássicos se juntou a Costa Dourada, no lado meridional da Catalunha. Ao longo de 60 quilômetros surgem seis clubes de golfe e meio, que se tornaram uma verdadeira comarca desde 2008 com a abertura dos 45 buracos do Lumine 

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Uns vinte anos atrás, quando o número dos recintos de Lyon começou a aumentar excessivamente, os donos de restaurantes se reuniram e entraram em acordo sobre uma coisa ao mesmo tempo óbvia e nada banal: portas abertas para qualquer um, contanto que fizesse culinária de qualidade. Agora o Guia Michelin atribui a eles 30 estrelas (duas triplas, seis duplas e doze individuais), mais do que qualquer outra área metropolitana da Europa, depois de Paris. Por trás dessa linha de pensamento há uma lógica: por mais que possa parecer contraintuitivo em relação às regras da concorrência, uma concentração de oferta de alta qualidade multiplica a atração por um lugar. Quanto mais se sabe que em Lyon se come bem, mais gente vai para lá.

Aconteceu o mesmo com o golfe na Espanha. Capta quase um quarto do bilhão e meio de euros que o turismo golfístico na Europa arrecada por ano. É de longe o destino preferido, segundo uma pesquisa apresentada pelo International Golf Travel Market 2013, e absorve 28,5 por cento daqueles que viajam com a taqueira, contra 17 de Portugal, 16,1 das ilhas britânicas, 7,5 da Turquia e 7,1 da França.

À Costa do Sol, Ilhas Canárias, Costa Brava e Ilhas Baleares, se juntou a Costa Dourada (Daurada, em catalão), o lado meridional da Catalunha. Ao longo de 60 quilômetros de estrada estão ordenados seis clubes de golfe e meio: La Graiera, em Calafell; Costa Dorada, em El Catllar, um pouco ao norte de Tarragona; Lumine (45 buracos), em Pineda, do lado oposto da cidade; Aigüesverds, em Reus; e Bonmont, em Mont-Roig del Camp. Outro, o Panoramica, encontra-se em Vinarós, a uns oitenta quilômetros mais ao sul, passado o Delta do Ebro e perto da fronteira com a província do Castellón (mas está associado ao consórcio da Costa Dourada).

Foram construídos entre 1983 e 1995, mas se catalisaram, tornando-se uma comarca, somente com a abertura do Lumine. Aconteceu em 2008, ano fatal da Crise Mundial. No entanto, uma boa ideia, uma localização excelente, dois ótimos campos e um fascinante 9 buracos foram mais fortes do que a crise econômica. Se ela retardou o desenvolvimento da comunidade (um hotel boutique de 100 quartos ainda não foi construído e a vila residencial procederá a fases, somente depois que cada lote for vendido), todavia, não afetou o sucesso no golfe. Os números são prova disso. Em outubro passado, bateu a meta dos 400 green fee diários. No primeiro trimestre de 2014, o número de rodadas jogadas aumentou em 220 por cento em relação ao mesmo período do ano anterior, e encerrou com um aumento de 2,5 vezes em relação a 2012. Há quatro anos, os golfistas estrangeiros representavam apenas dois por cento dos  green fee, e agora o percentual ultrapassou os 30.

Certamente, ajuda serem administrados pela Troon Golf, que tem no seu portfólio quinze clubes de golfe em oito países da Europa, e mais outros 135 em 18 países pelo mundo. Ajuda ter sediado a segunda fase da Qualifying School do Tour Europeu, os campeonatos continentais fourball e alguns torneios do Nordea Tour (os primeiros fora da Escandinávia), além de terem sido escolhidos como sede de uma etapa do Challenge Tour. E também ajuda ter ótimas relações com algumas federações escandinavas, que mandam para lá suas seleções nacionais juniores de inverno.

Contudo, o que mais conta são os 45 buracos, espalhados por uma área que cobre 500 hectares. Os  18 buracos do campo Lakes foram desenhados por Greg Norman, assim como os nove do Ruins; Alfonso Vidaor e Magí Sardà, dois excelentes jogadores amadores que se tornaram respectivamente engenheiro e arquiteto paisagista, fundadores da Green Project, projetaram o campo Hills. Todos são fieis ao seu nome. Em dois terços dos buracos do Lakes, a água entra no jogo desde o tee de partida, ao longo dos fairways ou em torno dos greens. O Hills se desenvolve entre colinas cobertas por abetos brancos, oliveiras e alfarrobeiras, com alguns greens fechados por paredes verticais de rocha espetaculares. O Ruins é pontilhado por ruínas arqueológicas romanas que remontam do segundo século antes de Cristo (Tarragona, fundada por Gnaeus Cornelius e Públio Cornélio Cipião e depois ampliada até ser a base militar romana mais importante da Hispânia, foi inserida entre os patrimônios mundiais da humanidade pela Unesco).

Ao longe, a montanha russa de PortAventura, um dos maiores parques de diversões da Europa, é uma constante no panorama do Lakes (juntamente às mais prosaicas instalações da refinaria Repsol). O campo, construído no terreno pantanoso de Sèquia Major, é o habitat natural de algumas espécies protegidas da fauna e da flora, como o íris-amarelo, o caimão-comum e o abetouro. Adotam práticas eco-compatíveis na manutenção dos fairways (de Kentucky bluegrass) e dos greens, na irrigação e reciclagem da água, no uso de energia renovável e de materiais sustentáveis para as construções. O resultado produziu, pela primeira vez na Espanha, o reconhecimento máximo da Audubon International, uma das associações ambientalistas mais conhecidas e respeitadas.

Neste par 71 de 6.490 jardas (todas as medidas desde os tees amarelos), com as características dos  links, o primeiro buraco difícil de esquecer é o 5, um par 4 curto com o lago à esquerda por toda a extensão e nove bancas que protegem o green elevado. Os segundos nove se abrem com quatro par 4 de crescente espetáculo. As 445 jardas do 12 possuem um afunilamento na área de aterrissagem do drive; a segunda tacada deve levar em consideração uma banca monstruosa à esquerda, que se estende por umas cem jardas, e um green colocado na transversal. O 13 é um dog-leg curto (323 jardas) à esquerda com o green defendido por quatro bancas. O 18 é o ‘signature hole’: uma ‘waste area’ enorme à esquerda do tee de partida, um fairway que se restringe na área de aterrissagem da segunda tacada e um green que na borda esquerda é costeado pelo lago, enquanto na frente está defendido por três bancas.

Os golfistas hidrofóbicos certamente gostarão mais do Hills, um par 72 de 6.542 jardas, onde a água entra no jogo só em quatro buracos. Os fairways se desenvolvem entre ondulações e desfrutam de encostas naturais. No geral, o campo é menos difícil do ponto de vista técnico e muito mais relaxante, também porque concede vistas do Mediterrâneo de beleza rara. Tem dois buracos memoráveis, ambos caracterizados por um muro de rocha que fecha a parte posterior dos greens. Tanto o 13 quanto o 18 são par 4 e ambos têm um lago à esquerda que complica a tacada de abordagem. O buraco final é um dog-leg à direita de quase 90° e de apenas 315 jardas (sempre a partir dos tees amarelos). Mas duas bancas convidam a bolinha no tee shot e o green, que se aproxima de uma parede com uns trinta metros de altura, se projeta para o lago.

No Ruins, um divertido par 34 de 2.642 jardas, os cinco buracos do 3 ao 8 descem a colina e oferecem vistas que levam à distração. O primeiro é um par 4 com o fairway cortado em declive para depois subir rumo a um green que parece mais um terraço panorâmico com vista para PortAventura e além.

Vale lembrar que, além do golfe, a Catalunha meridional oferece muito mais. O Beach Club do Lumine tem nove piscinas e o quilômetro de areia da Playa Del Llarga. Cambrils e Salou são postos litorâneos vibrantes. A zona vinícola do Priorat, onde produzem um dos melhores vinhos da Espanha, fica a uns quarenta quilômetros. O Delta do Ebro vale a viagem. E em Reus, que se alcança em quinze minutos, existe um museu que ajuda a entender Antoni Gaudí, o inventor de formas arquitetônicas deslumbrantes. Entre modelos e esquemas que trazem à natureza a sua criatividade visionária, também há uma frase incrível de Salvador Dalí, pronunciada durante um discurso no trigésimo aniversário da morte de Gaudí, em 1956: “O pintor Fortuny é um gênio. Como eu. Gaudí é um gênio. Como eu. Fortuny e Gaudí são de Reus. Como eu. O são porque, como diz o filósofo igualmente genial Francesc Pujols, tem um monte de gente neste país que não é de Reus, mas parece que é”. Dalí nasceu em Figueres, do outro lado da Catalunha, logo abaixo da fronteira com a França.