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O paraíso ( e o céu ) do golfe

by redação

Por Henrique Fruet*

06h15 – Toca o despertador. Logo mais é hora de pegar no batente.

06h20 – Coloco a sunga

06h25 – Respiro fundo, temendo que a água do mar esteja muito gelada. Ufa. Está apenas levemente fresca. Pulo algumas ondas, dou alguns mergulhos e volto para o quarto, a apenas alguns metros da areia.

06h35 – Hora do banho. De chuveiro, desta vez.

06h50 – De bermudas, camisa pólo, sapato de golfe e muita disposição, saio do quarto.

07h – Começo a tomar um farto café-da-manhã. O dia vai ser longo…

07h30 – Já no Comandatuba Ocean Course, bato um cesto de bolas no driving range e treino chipping e saída de areia. O dia promete!

08h – Rumo com meus parceiros para o buraco 10, de onde saímos. Jogo com duas figuras de uma gentileza e educação fora de série. E bastante divertidos também. Começamos com cordiais apertos de mão. Terminamos o jogo com abraços afetuosos.

12h20 – Termino o jogo. Ao contrário do dia anterior, quando somei 100 gross (ou 82 net), desta vez economizei nas tacadas e fiquei com 90 gross, ou 72 net. Ou seja, joguei meu handicap.

12h25 – Cartão assinado e entregue. Tomo algumas cervejinhas para aliviar o calor.

13h20 – Hora de almoçar. Vou de salada e de atum à portuguesa.

14h – Hora do meu tee time da tarde, desta vez do tee azul. Agora meus parceiros são um casal de amigos, duas figuras divertidíssimas.

17h15 – Fim do segundo jogo do dia. Desta vez, marquei 92 tacadas gross. Mas desta vez do tee azul. Como esqueci de conferir qual seria o meu handicap desse tee, não sei exatamente quanto foi o meu net. Mas fiquei feliz com a maneira com a qual bati na bola. No buraco 16, um par 4 de 271 jardas, repeti a proeza da manhã e coloquei o driver no green. Na manhã, topeira que sou, me penalizei por ter movido a bola antes de patear para birdie (claro, errei o putt para eagle) e no final das contas sai do green com um bogey. À tarde também errei o putt para eagle, mas desta vez saí com um birdie.

17h35 – Já estou eu novamente de sunga, pronto para entrar novamente no mar. Desta vez a água está morninha.

18h – Chego à piscina, ainda molhado do mar.

19h – De volta ao quarto, é hora de tomar um banho e dar uma relaxada. Afinal de contas, foi um duro dia de trabalho!

20h – Chego para o jantar de premiação. Nem vejo a cor da taça – o mais perto que cheguei do troféu foi do terceiro lugar. Mas nem me importei – afinal, estava lá trabalhando, não é?

22h – Chego ao bar Capitania. Peço um baldinho de gelo com algumas cervejas e acendo um charuto da República Dominicana, feito especialmente para Dom Frank Ranieri, um dos donos do Punta Cana Resort. Ganhei dele quando fui para a inauguração do Corales, e estava guardando para uma ocasião especial. Bem, um dia de trabalho duro e difícil como esse dá para considerar uma ocasião especial, não é?

0h30 – Fim do dia. Depois de tanto trabalho, bem que merecia um bom descanso, não? Pensando bem, talvez acorde cedo para jogar golfe no dia seguinte, pois ninguém é de ferro…

***

Em meio à quarentena, me peguei uma noite dessas relembrando esse dia maravilhoso que acabo de relatar. Sim, relembrando: não é ficção, e sim a mais pura realidade.

Para matar um pouco as saudades do golfe e para relaxar, tenho pensado bastante nos campos em que já joguei (ou trabalhei, hehe). E esse dia inesquecível que vivi há alguns anos em Comandatuba é uma das lembranças mais gostosas.

Gostaria de poder dizer que uma das primeiras coisas que faria depois da quarentena e do fim da pandemia seria repetir essa rotina. Mas isso não será possível: no começo do ano, fomos informados que o campo de Comandatuba iria encerrar suas operações.

Triste, muito triste… Me dói pensar que nunca mais vou me arriscar ou ser conservador no buraco 16, não saber se olho para o green ou para o mar no tee do buraco 17 ou correr pela praia atrás da minha bola ao longo da raia do 18 – isso sem contar os outros 15 buracos, todos maravilhosos.

Comandatuba está indo para o Céu dos campos de golfe – tenho certeza de que há sim um Céu, para onde vão todos os campos de golfe que morreram no meio do caminho, mas que ainda vivem na nossa memória.

Terá excelentes companheiros, como o seu vizinho baiano da Costa do Sauípe, outro campo que me inspira tantas saudades quanto excelentes memórias. Terá também a companhia de campos jovens, que morreram ainda meninos, sem nem ao menos terem atingido a maturidade, como foi o caso do campo do Malai Manso, na Chapada dos Guimarães, no Mato Grosso, uma bela obra de Dan Blankenship que morreu prematuramente.

Tenho certeza de que nossos amigos golfistas que partiram recentemente estarão tomando conta direitinho desse Céu do golfe para nós até nossa chegada… Não é, Alemão, Takeo, Mario Sérgio, Montoto, Cid?

FIM

*Henrique Fruet é golfista amador, jornalista, copywriter profissional e autor do livro “Golf- Os melhores Campos do Brasil”.

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