Home Técnica Sergio García: um fora de série natural
0

Sergio García: um fora de série natural

0
0

Recém-vencedor do Masters, o campeão espanhol Sergio García sempre se impôs com estilo bem pessoal, pouco ortodoxo, mas bastante eficaz. Imbatível nas tacadas de recuperação, tem o seu calcanhar de aquiles no putter, que muitas vezes o impediu de triunfar em um major

por Alberto Binaghi | Tradução Vania Andrade

garcia-copy

São tantos os foras de série que não tiveram a frieza necessária para vencer um major. Muitos deles estiveram na frente e chegaram bem perto, mas por um motivo ou outro não conseguiram cruzar a linha de chegada.

Sergio García foi considerado o principal jogador desta “triste” lista de “campeões sem major na carreira”, quando em 1999, com apenas 19 anos, competiu até o último buraco no PGA Championship com um Tiger no auge da boa forma. Ninguém nunca poderia imaginar que teríamos que esperar até 2017 para vê-lo vencer o seu primeiro major! Naquela ocasião, o adolescente espanhol, nada intimidado pela soberania de Woods, quase conseguiu roubar a cena, emocionando a todos.

Sergio é um dos jogadores mais empolgantes de se acompanhar no torneio: seu caráter, a competitividade, a vontade de lutar e de nunca se dar por vencido conquistou o público de todas as partes, que quase sempre torce por ele, mas às vezes também tenta perturbá-lo. Por causa de alguma declaração infeliz sua, nos EUA se diz: ou o ama ou o odeia. Já na Europa, é apenas amado…

Sergio é considerado um dos melhores batedores de bola do circuito. Seu impacto com os ferros é música para os ouvidos de um especialista de golfe. Suas tacadas de recuperação encantaram e exaltaram o público de todo o mundo. Tacadas difíceis não só de executar, mas também de imaginar! E se vê justamente que Seve, o maior de todos os tempos neste setor do jogo, transmitiu a ele um instinto fora do comum. Além do mais, quando emplaca por umas dez vezes nos top 10 do The Open, não pode ser por acaso: significa que sabe trabalhar a bola muito bem, além de executar qualquer tipo de tacada.

Por falar em The Open, em 2009, na qualidade de caddie de Manassero, tive a oportunidade de ver Sergio em ação no difícil campo de Turnberry. Fiquei muito surpreso, com previsões de vento forte, ao ver a madeira 5 na sua taqueira no lugar do ferro 1. Mas fiquei ainda mais atônito pelo fato que Sergio o utilizou com frequência desde o tee. Com uma grande ação de “deloft” conseguia, de qualquer maneira, obter trajetórias bem baixas que penetravam no vento escocês. E era interessante observar como, com um ângulo de ataque não muito vertical, o seu divot começasse sempre 15 centímetros depois da bola: uma tacada peculiar, única no seu gênero.

Mesmo com esses dotes dignos de artista, o swing de Sergio sempre esteve no centro de acaloradas discussões e não ausente de críticas. Quando os jornalistas lhe perguntavam por que nunca tentou melhorar a sua técnica, respondia secamente: “Prefiro um swing natural e eficiente, mesmo se pouco ortodoxo, a um construído, perfeito, mas pouco confiável”. E na verdade, se quiser fazer do golfe a sua profissão, o swing tem que dar confiança e consistência sob pressão e, inevitavelmente, nem sempre agrada aos especialistas em técnica.

Lembro-me de ter jogado com ele em um Aberto da Espanha, na sua estreia como amador no European Tour. Tinha mais ou menos 14 anos e o seu swing não era muito diferente do atual, confirmando o fato de que sempre deu mais importância aos resultados do que à estética. Analisando a sua carreira, nos damos conta que a causa dos seus períodos difíceis nunca tinha sido o jogo longo, mas a inconsistência do putt, que muitas vezes o prejudicou. Realmente difícil de acreditar que, apesar do prodigioso jogo curto e do enorme feeling nas mãos, sua relação com o putt nunca foi a das melhores.

Se analisarmos o swing de Sergio nossa atenção vai direto para duas características particulares: a instabilidade da parte de baixo do corpo durante o backswing e o “lag” do taco na parte inicial do downswing. Começando pelo address, podemos dizer de ter visto Sergio utilizar posições variadas de partida no decorrer da sua carreira, às vezes, também dentro de um único giro.

Geralmente, antes de executar a tacada, leva quase 30 segundos para encontrar uma posição cômoda de partida, com movimentos pequenos e contínuos do corpo. Anos atrás essa busca era combinada a uma série irritante de “rigrip” (abrir e fechar da mão direita), que também se torna motivo de gozação.

Na maioria das vezes vemos, de qualquer modo, García “se endireitar” perto da bola, com mãos altas, busto ereto e joelhos bem flexionados, tanto que geralmente a projeção dos glúteos para o terreno cai bem atrás dos calcanhares. Uma posição de defesa que faria pensar em um “punch shot” controlado, mas, assim que lança uma bola explosiva e altíssima, se fica de boca aberta: é incrível a potência e a velocidade que ele consegue empregar.

Contudo, analisamos onde está realmente a contratendência. Estamos acostumados a ver backswing com pernas e quadris, praticamente como estátuas, que criam uma base sólida, enquanto os ombros, em rotação, ganham espaço para a direita e criam no ápice um bom ângulo entre ombro e quadril esquerdo. Sergio se comporta de maneira oposta, com uma transferência de peso realmente particular. Os joelhos ficam bem móveis e impulsionam para a direita, a ponto de se encontrar no ápice do backswing com o peso para fora do pé direito e o calcanhar esquerdo levantado. A instabilidade das pernas força o tronco a contrabalancear essa ação, permanecendo bem central… a supervisionar a bola!

Em outras palavras, as pernas se movem muito, enquanto a parte de cima gira sobre si mesma deixando esterno e cabeça parados na bola. Enquanto o taco está completando o back, Sergio recomeça pelo downswing com um ótimo apoio do quadril esquerdo, recriando imediatamente a centralidade da parte de baixo, perdida no início. Durante essa ação de impulso rumo ao alvo, o braço direito, que até aquele momento tinha permanecido reto, se flexiona abaixando o plano do taco, que se colocará numa posição plana.

No início do downswing os ombros continuam fechados por muito tempo em comparação à media dos jogadores do tour, e essa ação favorece a aproximação do taco ao ombro direito criando o famoso “lag acentuado”, marca registrada de Sergio.

Na realidade, o enorme ângulo agudo formado entre o braço esquerdo e a vara, visto da câmera frontal, está ainda mais acentuado, precisamente porque os ombros mantêm uma posição fechada. A partir daqui, o corpo começa a se desenrolar rumo ao alvo e em poucos instantes leva o taco de um plano bem liso ao convencional, sem a ajuda das mãos, que continuam passivas no impacto. Junto a Ben Hogan, é um dos poucos a trazer de volta o taco no impacto exatamente na posição de partida, tanto pelas mãos quanto pelo plano do próprio taco.

A reportagem completa você confere na edição mais recente de “Golf & Turismo – 55 especial 10 anos”